Em órbita — Terra: Sinal #05
Sobre despedidas no entrelaçar das estações
Diz a lenda, que dentre todas as árvores na Terra, o criador perguntou quais delas gostariam de florescer no inverno. De todas as estações, a única onde o sol descansa a maior parte do dia e a água viaja pelos céus sem retornar à terra. E diante de todo o silêncio - rodeado por medo das noites frias que estariam a vir -, se ouviu apenas uma voz, vindo de uma árvore pequenina dentre todas as outras: — Eu, eu! Eu quero florir no inverno! Essa árvore era o Ipê. E por sua coragem, recebeu a graça de florescer não apenas num único tom, mas em flores de todas as cores. E nesta estação, vi ipês de todas as cores. Ipês rosas, roxos, brancos e amarelos. Assisti, do meu cotidiano, a chegada e despedida de cada flor - ano após ano no atravessar das estações. Não me apego, no entanto, porque sei que cada flor vive não mais do que um dia. Até que no bailar da Terra, seja inverno mais uma vez. Por isso guardo na memória cada tom, em cada flor - e peço ao Ipê, a coragem de florescer no inverno. Pois sempre tive medo - como todas as grandes árvores também tiveram. E eu, como nasci gente, não aprendi a mudar com as estações. Cresci tão rodeado por gente, que quase acreditei que tudo deveria ser pra sempre, o ano todo. Mas por mais que eu admire os céus, minha força vem da terra. E sei, que no virar do mês, já está à espera a primavera. E como o ciclo de horas que compõe os dias, meses e séculos, procuro acreditar que a vida é marcada de finais; e recomeços. E apesar de não ser inimigo do fim, venho vivendo incontáveis vezes cada segundo como se fosse o último. Há meses venho me preparando para despedidas, dos lugares, das estações, dos momentos e corações. Venho vivendo o fim interminavelmente; até que ele chegue. Guardo na galeria uma peça de cada instante, na esperança de que não fujam as memórias - me deixando com a única angústia de quebra-cabeças vazios. E inevitavelmente, na tentativa de fazer o impossível, peço ao tempo para o momento durar pra sempre. Mas vejo, flor-por-flor, caírem aos meus pés. E sei, que é hora de flor(ir).
Com carinho,



