Em órbita — Saturn V: #03
08h45min: 12 de Abril de 2004
“I have lived a great deal among grown-ups. I have seen them intimately, close at hand. And that hasn’t much improved my opinion of them.”
Hoje eu completo vinte e um anos. Não escrevo porque quero mensagens com desejos de feliz aniversário — pelo contrário. Mas de fato, porque ter um dia de olhares e atenção voltados a mim, sempre me causou certa estranheza. E sobretudo, comemorar este início de vida adulta é, também, comemorar toda a vida que vivi aos 5 anos, aos meus 15 e, aos meus 20 anos. E quanto a estes últimos anos, devo dizer que os tenho visto passar correndo sobre os meus olhos, apesar de estender a mão todos os dias na intenção de capturar alguns segundos de vida e guardá-los no peito pra sempre. Mas sobre isso eu já te contei. Fatidicamente, no entanto, meu armazenamento limitado se deixa esvair de algumas memórias expostas ao tempo. Meu sistema nervoso, no entanto, sei que continua a se lembrar de cada uma delas.
Sem escapatória, por vezes as vozes de Principia voltam sempre à minha mente desde a primeira Órbita.
Vejo a vida passar num instante, será tempo o bastante que tenho pra viver?
E num instante, todos os continentes hão de declarar-me formalmente como um adulto por inteiro. Mas ao mesmo passo que me negam a alegria de ser criança, vejo minha vida definida no momento em que Saint Exupéry — que por vez moldou minha infância com suas palavras — nos escreve: “Vivi muito entre os adultos. Eu os vi intimamente, de perto. E ainda assim, isso não melhorou muito minha opinião sobre eles.”. Pois apesar dos anos que se passam, olho-me no espelho e encontro o olhar de uma criança que me encara de volta. Mas meu corpo discorda. Vejo vestígios da vida adulta por toda parte. E percebo que agora, talvez, eu tenha por fim encontrado a resposta para quem eu quero ser quando crescer. Mas quem eu sou, agora que cresci?
Me desfaço em inúmeras versões na intenção de encontrar ao menos em uma delas a construção de tudo que sou feito gente. Com tantas definições, falho em separar: quem sou, de tudo que faço — o que se perde ao longo dessa linha do tempo escrita em lapsos. É neste ponto, talvez, em que descrever um currículo se torna muito mais fácil do que descrever a alma. Mais ainda, devo dizer, quando meus últimos anos se descreveram em termos de leis físicas e postulados, despersonalizando todas as faces que construí na arte, na música, na poesia, nos meus gostos e por muitas vezes também nas companhias. Muito fácil seria me descrever a rigor técnico e científico. Deixando-se esquecer, que durante toda a vida tudo que sempre quis foi ser gentil, por vezes talvez um bom amigo; um aconchego ao redor — Sempre falhei. E todos os dias tento outra vez.
Mas com tantos caminhos, acabei por me perder em mim mesmo. Procuro por todos os lados e tampouco me encontro. Me esforço para me encontrar em um único tom, mas sei que no fundo, tudo o que me define seja talvez feito um vitral composto por todas as cores e todas as coisas que guardo na alma com carinho. Talvez, por fim, entre tantos aspectos, tudo o que sou se constrói agora.
E apesar dos anos, sei que ainda guardo a minha criança dentro de mim.
Yours sincerely,
Satellite.


