Em órbita — Cassini: #06
Quem diria, a vida é boa;
Campinas - SP, cinco de Abril de 2026.
05 de Fevereiro de 2026
Até que os dias acabem e que o mundo se esvaia, que eu não me esqueça de que a vida é boa;
Escrevo esta primeira carta do ano já no início do outono, repleta de escritas do melhor verão que pude viver e carregada do que guardo no coração, por ora partilhadas com quem as lê.
A vida não é mais a mesma, tampouco eu sou a mesma pessoa que por ora fui.
Mas o que sinto, aqui dentro, permanece igual.
Me cede a sua companhia até o final desta carta?
17:50, 25 de Fevereiro de 2026.
Tenho vivido privilégios demais, para uma pessoa como eu — da forma como sou, de onde vim e para onde vou —, que sob nenhuma circunstância passariam nas minhas ideias de criança.
De todas as coisas que já quis ser quando crescer, nunca imaginei que estaria onde estou agora.
Tenho vivido todos os sonhos que nunca sonhei; minha alma se enche de alegria pela vida que tenho tido a chance de viver todos os dias hoje.
E por mais que eu não me resuma ao acadêmico, parte de mim acontece dentro da pesquisa — e mesmo sem que eu procure, me encontro todos os dias e não há nada que me preencha mais do que o relance do que ainda não foi descoberto.
Quem eu fui, aos 16, se surpreenderia ao me ver na física, mas quem eu sou desde os meus 5 anos, desde sempre já soube o que eu me desvencilhava em perceber.
E, no último ano, mesmo com medo de altura, ganhei as asas que eu precisava para voar.
Ora, veja só, quantas graças não se deram até aqui?
Em outubro do último ano, pude subir ao palco e receber um prêmio inimaginável, de melhor entre os gigantes, mesmo sendo eu, ao meu ver de cá tão singelo, tão pequeno.
Em novembro, o percurso se repete no pódio (que pude subir sem mesmo antes saber que existiria), não mais importante do que a chance que tive em ver com meus próprios olhos as descobertas inexistentes em qualquer outro lugar, em cristais pequenos feito estrelas no céu, pelos quais zelo como se fossem filhos.
Em dezembro, alcancei o que nunca almejei, mas por meses sonhei em silêncio, na esperança de que o mundo me desse uma chance de viver.
Hoje, escrevo enquanto mestrando, graduando e bolsista — dentro do maior centro de pesquisa no hemisfério de cá. Conheci o inigualável, e vi, de perto, o que eu nunca imaginaria por lá.
E digo, que com este coração que vem do sertão, cresci sem reclamar da chuva, depois de viver a maior parte dos meus dias a por ela esperar no verão.
De cá, chove sempre.
E como quem aguarda o fim da seca, agradeço aos céus todos os dias.
Isto digo, pois lado-a-lado aos dias de felicidade, tenho vivido os meus dias mais difíceis.
E mesmo levantando-me com o sol às cinco, com noites em claro até o outro dia, devo dizer que nunca fui tão grato.
Cada minuto vem do que por muitos dias eu pedi.
De casa, minha mãe relata, as preces que tem feito para que eu possa ter coragem.
E mesmo que eu não me encontre subscrito no dogma, vejo o resultado de suas orações por todos os dias.
Pois lá em casa, já não chove.
E vejo que minhas vitórias não são só minhas,
mas feito um relicário, de quem eu amo e quem me viu crescer;
Tendo a certeza que cresço até hoje.
Quão feliz é, poder viver essa vida entre tantas outras.
11:54, 05 de Abril de 2026.
Vejo as pessoas dizerem que a vida é boa quando se ama alguém,
que por hora, o mundo ao redor se enche de cores,
e neste momento com tudo se encanta,
e, toda a beleza do mundo,
de repente se vê,
perto de outrem.
—⭑—
Digo, no entanto, que por vezes não sabem o que dizem!
se enganam aqueles que precipitam-se por outros,
pois digo, convicto de mim, que a vida é boa o tempo todo.
—⭑—
Só, vejo cores por todo o redor,
e não me canso dos encantos que vivem no ordinário,
certo de que vejo o mundo unicamente por meus olhos,
carregado do invisível que vê o coração.
—⭑—
Não escrevo poesias, ora, por romantismo,
pois não me precipito por abismos,
mas por aquilo que é real
e por tudo que vive em mim.
Me vejo na obrigação de frisar, mesmo assim, que a vida é boa, mas têm sido difícil;
E procuro não me perder de mim,
até que os dias acabem
e que o mundo se esvaia.
E devo dizer, ainda,
que para alguém que planejou uma vida que se encerrasse antes dos vinte,
não há nada que me encha mais de alegria do que viver todos os dias, dia após dia.
E veja só, em uma semana terei vinte e dois.
“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”
— Clarice Lispector
Te guardo no coração pela companhia e, prometo, tentar não deixar de te escrever.
Yours sincerely,
Satellite.



